Vida por um fio (náilon ou elástico)

Já reparou que não se fazem mais suicidas como os de outrora? Tinha uma época em que a cidade praticamente parava com a ameaça de alguém se jogar de um prédio. Considerando que 1) os edifícios não ficaram mais baixos ou especialmente mais seguros (pelo menos nesse sentido), 2) que isso seria de interesse do público – se não do jornal da noite, pelo menos dos transeuntes; e 3) que sempre há pessoas nessa vida que não estão mais interessados nela; ao que parece as pessoas não pensam mais em pular.

 

Outro dia, voltando de um fim de semana em Cabo Frio com amigos, tentei me lembrar da última vez que houve notícia de alguém tentando se jogar do vão central da Ponte Rio-Niterói.

Tinha uma época em que essa era a meta de todo bom deprimido. Encerrar tudo, se atirando do alto de seus 70m, era um must. Não sei se o que atraía as pessoas para esse lugar nos seus derradeiros momentos era a certeza de que certamente deve existir um Deus para ter bolado uma paisagem como aquela ou a certeza de que se a queda não o levasse, a poluição da Baía certamente o faria.

Pois é, isso não existe mais. Tirando um cara drogado que no desespero de fugir da polícia há alguns anos se jogou da ponte (infelizmente para ele, foi naquele trecho do porto e não no da água), não há novos saltadores. Havia até um boato que a Ponte S.A. não divulgava mais esses casos por motivo de segurança, mas acho que isso não é verdade. Afinal agora ela até instalou refúgios suspensos – certamente voltados a atrair de volta àqueles que querem estacionar o carro pela última vez sem atrapalhar os niteroienses querendo chegar em casa.

Eu tenho para mim que a grande razão da mudança de hábitos é o test-drive da queda. Hoje em dia dá para saltar de pára-quedas ou então fazer bungee com toda a segurança para saber se é assim que você quer ir. Ou essas atividades são tão boas que deixam a pessoa novamente interessada em viver ativamente cada minuto, ou são tão aterrorizantes que acabam fazendo que o indivíduo escolha por uma forma menos radical de partir.

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Uma resposta to “Vida por um fio (náilon ou elástico)”

  1. tma Says:

    me lembrei te outra palavra que me irrita tanto quanto fronha, transeunte.
    tá ótimo! publica e divulga logo isso aeh!
    bj
    t.


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