Forma sobre função

Quando resolvemos instalar um ferrolho na porta de casa, eu e A Moça chamamos um chaveiro das redondezas. O cara chegou, separou o material, e colocou-se a trabalhar enquanto nos contava como era bom no que fazia – que se tivesse sido o assistente dele a atender o nosso chamado, o ferrolho só ficaria pronto 2 horas mais tarde, que ele tinha não sei quantos anos de experiência fazendo aquilo, etc.

Até que ele furou a porta pelo lado de fora.

Aí a gente pensa: Que anta! Como um cara como esse continua no mercado?

Agora imagine que você está constuindo uma casa, uma mansão, do zero. Você procura um arquiteto qualificado, passa os seus requerimentos e ele começa a trabalhar, orientando a obra e supervisionando os detalhes.

Até que você descobre que ele colocou a sala de jantar no segundo andar e a cozinha no subsolo.

Aí a gente pensa: Gênio! O cara é um transgressor – vamos encher ele de novos projetos(?!).

É claro que o chaveiro pode cometer erros. O arquiteto deveria ter o seu projeto aprovado (ou teve, provavelmente por alguém que não iria morar lá). Shit happens.

Agora, suponha que você peça para o chaveiro trocar o segredo do carro e ele instale uma Papaiz. Ou que você peça que um determinado projeto seja feito de tal maneira e o arquiteto te responda algo na linha: “Você pode pedir o que quiser, eu vou fazer o que me der vontade”. Você chamaria qualquer um deles de novo?

Pelo visto, ao arquiteto sim –  e é essa popularidade o que eu nunca entendi sobre o Oscar Niemeyer… Morei em Brasília por dois períodos antes de ter qualquer opinião formada sobre arquitetura (da última vez, aos 8 anos de idade) e nunca gostei muito. Com o tempo, tive certeza que não me agradava.

Acho que é aquela coisa espaço livre a se preencher. Afinal, não tem porque você fazer algo mais “orgânico” se você não tem limites para expandir. Veja a Ilha do Fundão, Barra, Miami, etc. vs. o centro do Rio, de Lisboa, de Roma: enquanto uns foram feitos para se andar, outros foram feitos para se dirigir. No fundo, acho que essa é a síndrome de todos os grandes espaços planejados – o excesso de espaço.

Desculpando-se esse ponto, me intriga como certas coisas não são questionadas. Desisti de criticar o arquiteto depois de diversas discussões com conhecidos sobre como eu não “sacava” a sua genialidade, como as linhas do Palácio do Planalto são “brilhantes”, como existem centenas de milhares de pessoas que o admiram, estudam sua obra, seguem os seus passos, dedicam horas/vidas inteiras à…

Muito chato isso… É feio, é pouco funcional, é pouco prático. Claro, a forma do Alvorada chama atenção por seus pequenos pontos de suporte. A Catedral tem aquela leitura de mãos erguidas ao céu, mas peralá… Deus da arquitetura?

Outro dia apareceu uma notícia sobre a elaboração do troféu do GP Brasil. Elaborado em um material inovador (polímero produzido a partir do etanol), o autor gastou a maior parte da matéria extaltando a genialidade do arquiteto por juntar a forma de um volante de F1 com… a estrela do Alvorada! Brilhante! Inovador! Linhas do mestre!

Aí, eis que na semana passada, a Veja publicou o seguinte trecho do livro do Larry Rohter – Deu no New York Times:

Outro exemplo de um aspecto da cultura brasileira elogiado
muito mais do que ele provavelmente merece é a obra do
arquiteto Oscar Niemeyer. Sei que isso pode soar chocante,
porque há um consenso quase universal aqui no Brasil de
que Niemeyer é um gênio. (...) Deixando de lado a política
stalinista de Niemeyer, que é execrável, há uma contradição
fundamental e irreconciliável entre o que ele professa e a
obra que ele produziu. Ele afirma querer uma sociedade
baseada em princípios igualitários, mas sua arquitetura,
para usar a linguagem do mundo da computação, não é
user-friendly. Ao contrário: ela é profundamente elitista e
mesmo egoísta, concentrada principalmente em fazer
declarações grandiosas e eloqüentes por si mesmas, para
satisfação de Niemeyer e seus admiradores, mesmo que cause
desconforto ou inconveniência ao usuário.

User-unfriendliness. Não teria dito melhor. Em verdade, acho que não disse.

Update: Eu esperei até a semana seguinte para ver os comentários na sessão cartas da Veja. Achei que ia ser uma enxurrada de leitores defendendo a honra nacional, mas só foram 9. Pelo visto, não estou mais sozinho na crítica.

 

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Publicado em Opinião. 4 Comments »

4 Respostas to “Forma sobre função”

  1. deiselima Says:

    não amo brasilia. e gosto de algumas coisas do niemeyer e admito sua importancia. o homem fez coisas nunca dante imaginadas com concreto. fez o primeiro enorme vão de concreto sem apoio, que já não lembro qual foi. foi o primeiro a usar concreto “em curva”. de resto, acho tudo grandioso mesmo. mas essa coisa de espaço vazio, vamos dar nomes aos bois foi do Lúcio Costa – se não me engano e não do Niemeyer. Lúcio Costa, o mesmo da Barra. A teoria é boa, na verdade se baseia numa cidade com grandes espaços publicos de convivencia, o que poderia levar inclusive a casas e apartamentos menores: menos desperdício, mais espaço pra crescimento e se fosse hj em dia alguém já teria dito que é mais ecológico. veja o aterro do flamengo: tem muito espaço ‘vazio’ ali e funciona super bem. eu não acho que a Barra tenha um problema de planejamento por exemplo. não gosto do bairro, do conceito de tudo se fazer de carro e aquela qtde sem fim de shoppings, mas ela funciona. diferente de brasilia, acho o fim ter um setor hoteleiro, um setor de hospitais, por exemplo. e tb acho o estilo grandioso de Niemeyer megalomaníaco.
    conclusão: vc tá sendo um pouco implicante e parcial demais na sua opinião mas, sim, tb não acho niemeyer esse super mega gênio.
    (dito por Deise – ex de arquiteto e metida a ter aprendido algo de arquitetura)

  2. thomaz Says:

    nessa eu tô contigo.
    acho o cara uma referência e respeito sua vida e obra.
    mas nunca cheguei serquer a “gostar” de algum dos trabalhos.

    bj

  3. thomaz Says:

    nessa eu tô contigo.
    acho o cara uma referência e respeito sua vida e obra.
    mas nunca cheguei sequer a “gostar” de algum dos trabalhos.

    bj

  4. Dani Says:

    Pedro Malones tem um blog e ninguém me contouu??? 😀

    Eu gosto de algumas das obras do Nyemeyer. Não conheço Brasilia mas acho o Museu de Niterói legal. Mas tb não entendo o suficiente de arquitetura pra saber se o cara é gêni ou não. Mas normalmente, a inovação com materiais e formas é algo que vem de bons profissionais de criação.

    Mas já que eu não sei discutir arquitetura, aqui vai uma história que você vai gostar e pode juntar ao seu repertório “Niemeyer não é gênio”:

    Sabe aquela Igreja de São Francisco no Conjunto da Pampulha em BH? (http://www.flickr.com/photos/danilima/2217800112/in/set-72157603788409976/)

    Então, o desenho da igreja é diferente e realmente muito legal. Inclusive por dentro, onde tem um confessionário com uma parede meio que “em caracol” que serviria para o confessionário da Igreja.

    Tudo muito bonito mas… o tal confessionário não adianta de nada. Pq por conta da acústica do lugar qq coisa que você susurrar ali dá pra ouvir na igreja inteira! Ouvi isso de uma guia quando estive lá em janeiro desse ano.

    Isso é que é ser user-unfriendly :p


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